Ela me olhava com olhos de quem diz “leia-me como quem se afoga”. Mas naquele tempo eu ainda não entendia. Porém a observava em todos os momentos, quando chegava, sentava e saía, sem dizer uma só palavra, ou sendo monossilábica.
Apenas me olhava com aqueles olhos rios de águas escuras. E quando eu via aqueles olhos em mim, sentia que dialogavam comigo línguas antigas e esquecidas que eu não poderia compreender. Fascinava-me o silêncio dela. A elegância em não dizer. Mas ao mesmo tempo, eu queria algum diálogo que aproximasse os meus olhos dos castanhos dela.
Ela entrava e saía como quem chega de uma longa viagem, cansada. Mas eu não via o que pesava em seus ombros. Apenas percebia-os arqueados, como se a força dos rios que vinham dos seus olhos desaguasse sobre eles. Ombros cachoeiras, de rochas grandes que contêm a força das águas. Mas o rio é rio, ele só passa.
Quando ela passava por mim, havia um cheiro de lírios. Talvez crescessem flores por debaixo dos seus braços. Havia de ser aquela abundância de águas. Sentia cheiro de água, ouvia seu som passando pelo corpo. Tudo isso enquanto nossos corpos se cruzavam. Mas eu sempre passava muito rápido, ou talvez o rio que passava sobre ela fosse correnteza depois de muita chuva, não podia desacelerar. Certo é que nunca conseguia parar e falar dito algum. Acho que ela não sabia nem o meu nome. Mas o dela, certamente poderia ser o nome de um rio, já que há tantos no mundo.
Eu sentia vida e tristeza quando ela cruzava meu olhar. A vida de quem permite aos outros vida, com a tristeza de quem está aprisionado a um caminho. Porém tudo isso eu sentia sem compreender.
Até o dia em que não mais a vi. Em vão meus olhos buscaram aqueles rios escuros. O cheiro, som, nada. Como um rio muda o seu curso d’água? Como um rio muda de lugar? Indaguei-me incansavelmente. Acho que ela inteira se tornou rio para não se afogar.
Que texto lindo, Paula. A imagem do rio que segue sem escolher novos caminhos ficou ecoando aqui o dia inteiro. Obrigada por compartilhar.
Fico tão feliz que tenha ecoado em você, Marina. Acho que escrevo justamente para que esses rios encontrem companhia. Um abraço apertado!
Li em voz alta para minha esposa. A frase ‘leia-me como quem se afoga’ nos pegou de jeito. Vou voltar para reler com calma.
Cheguei aqui por indicacao de uma amiga e ja virei leitora fiel. Esse silencio que voce descreve no olhar… eu conheco bem.
Seja muito bem-vinda, Bia! Esses silencios costumam ser mais compartilhados do que a gente imagina. Espero te ver por aqui sempre.
Senti falta de novos textos e que alegria encontrar este. Vale cada espera. O trecho sobre mudar os cursos d’agua me tocou demais.